Marias
Incisivos
Caninos
Molares
Abaixem as bandeiras
Que amo
Teu sorriso largo de problema algum
Egoistamente
J.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Coca-cola com gás
Chuva que não bate em mim
Um boteco chinfrim
Um médico quando jaz
Café sem açúcar
Um problema miúdo
Um verbo no futuro
Coisa pra fazer depois
Comida sem arroz
Cachaça e sinuca
Morena despida
Sorvete de tamarindo
Sal na comida
Um chato saindo
Um numero impar
Ou um par mais um
Noite sem rum
Um cinzeiro bonito
Um copo americano
Um garçom amigo
Cozinheiro italiano
Pernil de porco
Com molho de abacaxi
Farofa de banana
Purê quente
Uma tragédia pra rir
Uma cesta conseqüente
Cachorro mudo
Gato morto
Bandido preso
Um amigo escroto
Final de missa
Inicio de festa
Meio amargo
Matar formiga
Comida de quaresma
Quadro de giz
Machado da Assis
Coisa estranha
Teia de aranha
Poeira de coisa antiga
Ver sangue em briga
Urinar em arvores
Um real de pão
Barbeiro eficiente
Uma freira bem quente
Um padre a sete palmos do chão
Um fato esquisito
Apreciar o teu sorriso
Morrer nos teus braços
Tua pele
Teu cansaço
Tudo isso é coisa que eu espero
Mas nunca se tem o que se quer
Serei feliz se ao menos
Puder ouvir um bom bolero
E ter você como mulher
J.
Chuva que não bate em mim
Um boteco chinfrim
Um médico quando jaz
Café sem açúcar
Um problema miúdo
Um verbo no futuro
Coisa pra fazer depois
Comida sem arroz
Cachaça e sinuca
Morena despida
Sorvete de tamarindo
Sal na comida
Um chato saindo
Um numero impar
Ou um par mais um
Noite sem rum
Um cinzeiro bonito
Um copo americano
Um garçom amigo
Cozinheiro italiano
Pernil de porco
Com molho de abacaxi
Farofa de banana
Purê quente
Uma tragédia pra rir
Uma cesta conseqüente
Cachorro mudo
Gato morto
Bandido preso
Um amigo escroto
Final de missa
Inicio de festa
Meio amargo
Matar formiga
Comida de quaresma
Quadro de giz
Machado da Assis
Coisa estranha
Teia de aranha
Poeira de coisa antiga
Ver sangue em briga
Urinar em arvores
Um real de pão
Barbeiro eficiente
Uma freira bem quente
Um padre a sete palmos do chão
Um fato esquisito
Apreciar o teu sorriso
Morrer nos teus braços
Tua pele
Teu cansaço
Tudo isso é coisa que eu espero
Mas nunca se tem o que se quer
Serei feliz se ao menos
Puder ouvir um bom bolero
E ter você como mulher
J.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Eu, o copo
Prendia-me doentiamente aquele copo, pousado sobre aquela mesa. E sabia que nela só restaria daquele copo, depois que a mão negra e molhada de água e espuma o levasse, a marca d’água na toalha chinfrim.
Aprendi mais com aquele insigne episódio do que com a minha vida. Comparei-me ao copo e vi meu destino. Só a marca d’água, só resquícios que secam com o tempo, depois disso, só as memórias amareladas de poucos ou o epitáfio.
Sou como ele. Enquanto cheio sugado pela boca, que a posso chamar de vida.
Depois de vazio... Não interessa mais.
J. (os ouvidos da parede)
Aprendi mais com aquele insigne episódio do que com a minha vida. Comparei-me ao copo e vi meu destino. Só a marca d’água, só resquícios que secam com o tempo, depois disso, só as memórias amareladas de poucos ou o epitáfio.
Sou como ele. Enquanto cheio sugado pela boca, que a posso chamar de vida.
Depois de vazio... Não interessa mais.
J. (os ouvidos da parede)
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Ontem eu comprei uma camisa linda.
Como é linda a camisa...
Todos vão falar!
Mas que todos?
Comprei uma camisa linda.
Não tenho a quem mostrar.
J. (Os ouvidos da parede)
Como é linda a camisa...
Todos vão falar!
Mas que todos?
Comprei uma camisa linda.
Não tenho a quem mostrar.
J. (Os ouvidos da parede)
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Quero a alegria dos primeiros andares,
Mas elevadores também me confortam
Quero o consolo das moças viúvas,
Apesar dos vivos não me darem trabalho
Quero a eficiência dos homeopáticos,
Por que odeio dormanid
Quero a prudência dos cardíacos,
Embora os diabéticos também me pareçam preocupados
Quero a paciência dos obesos,
Mas estou bem com o minha
Quero a fidelidade dos asmáticos,
Por que não me contento com a pura verdade
Quero a obediência do remorso maternal,
Mas todos meus amigos moram no último andar
J. (os ouvidos da parede)
Mas elevadores também me confortam
Quero o consolo das moças viúvas,
Apesar dos vivos não me darem trabalho
Quero a eficiência dos homeopáticos,
Por que odeio dormanid
Quero a prudência dos cardíacos,
Embora os diabéticos também me pareçam preocupados
Quero a paciência dos obesos,
Mas estou bem com o minha
Quero a fidelidade dos asmáticos,
Por que não me contento com a pura verdade
Quero a obediência do remorso maternal,
Mas todos meus amigos moram no último andar
J. (os ouvidos da parede)
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Balões e estrelas
Balões e estrelas
Te convidam para voar
E você responde,
Toda sem jeito,
Que não quer voar
Balões e estrelas
Te convidam para voar
E você responde,
Toda sem jeito,
Só com o olhar
Balões e estrelas
Não te convidam mais para voar
Por que voar já não tem mais graça
Quando não se compreende um olhar
Balões no chão
Estrelas desfeitas
A festa se acaba
O céu se apaga
E um preto sórdido
Veste o meu corpo.
J.
Te convidam para voar
E você responde,
Toda sem jeito,
Que não quer voar
Balões e estrelas
Te convidam para voar
E você responde,
Toda sem jeito,
Só com o olhar
Balões e estrelas
Não te convidam mais para voar
Por que voar já não tem mais graça
Quando não se compreende um olhar
Balões no chão
Estrelas desfeitas
A festa se acaba
O céu se apaga
E um preto sórdido
Veste o meu corpo.
J.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Conto novo!
O vendedor de cata-ventos
Por lá ia eu. Aquela rua centenária, aquelas casas centenárias e aquelas pessoas centenárias.
Lembro-me como se fosse ontem, uma rua estreita de casas antigas, uma rua colorida, chamada nostalgia. Uma das ruas mais lindas daquela cidade, com as pessoas mais esquisitas daquela cidade.
Por lá ia eu, Puxando minha perna esquerda.
Por lá ia eu, procurando a casa 71.
Doutor Jarbas disse que a cicatrização não demoraria, mas já faz uma semana...
Eu sabia que ele não era de confiança, aliás, nenhum médico é de confiança.
Disse-me também, antes de pegar o bisturi elétrico, que não doeria.
Se eu soubesse que a anestesia doía tanto assim, teria feito sem ela.
Por lá ia eu, Puxando minha perna esquerda.
Por lá ia eu, procurando a casa 71.
Não caí. Graças à Nossa Senhora Protetora dos que não olham para o chão.
Rezo todos os dias.
Passou a 315, a 285, a 277...
Parei na 115, casa escabrosa.
De um vermelho desbotado e velho, não combinava com a rua e, apesar de também ser uma construção de idade elevada, nada se comparava às outras.
A casa não tinha muitos adornos, era reta e sem janelas. Não havia degraus, não havia grade e não havia nada. A porta, entreaberta, era uma tabua sem cor. Não havia um azulejo, até por que era vermelha.
Meu pé, naquela hora, inchado, obrigou-me a sentar no batente em frente da casa.
Ah! Que pena senti quando descobri que havia esquecido meu conhaque...
A vida já está me pesando nos ombros, a vida e a carroça. Lembrei-me do mito da caverna. Também, como não haveria de pesar a minha carroça? Não existem mais crianças, estão todos velhos, estão todos cansados e com sono. Platão é um idiota, como pode explicar o mundo?! As crianças de hoje estão dormindo. Se Platão entendesse que não adianta saber um pouco de tudo... Não se fazem mais crianças como antigamente. Eu, por exemplo, prefiro compreender tudo, sobre quase nada. Se bem que eu acho que ele não entenderia, afinal, ele só entende um pouco. De quase tudo.
Por lá ia eu, Puxando minha perna esquerda.
Por lá ia eu, procurando a casa 71.
J.
domingo, 4 de outubro de 2009
Último pedido
Um por um caíam os sonhos e o balde, quase cheio, cantava-me as dores.
A fumaça do meu companheiro, único, pintava no ar o retrato de minha idade.
Tudo vai.
Vão-se os amores
Vão-se os reinados
Vão-se as alegrias
Vão-se os pudores
Vai tudo.
Para um jardim murcho, além das fronteiras das minhas mãos.
-Até você saudade?!-
-Vá também!-
Vai-se tudo, amigo.
Deixem-me só o cigarro, com sua solidão.
J.
A fumaça do meu companheiro, único, pintava no ar o retrato de minha idade.
Tudo vai.
Vão-se os amores
Vão-se os reinados
Vão-se as alegrias
Vão-se os pudores
Vai tudo.
Para um jardim murcho, além das fronteiras das minhas mãos.
-Até você saudade?!-
-Vá também!-
Vai-se tudo, amigo.
Deixem-me só o cigarro, com sua solidão.
J.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Mais um conto, bem antigo e imaturo.
Relato de Abílio
Introdução
Esta pode parecer uma história feliz, mas não te enganes. Renato foi feliz uma única vez. Na hora da morte. Sua vida não passou de uma mentira e sua morte foi mais uma. Por que Renato não morreu, pra falar a verdade, acho que nem viveu. Sua história se resume a uma única aventura de amor, ou melhor, de mentira.Morreu aos 23 anos, por ele teria sido antes. Morreu em casa, só. Tu deves estar se perguntando como eu sei de tudo isso? Fui o seu único e verdadeiro amigo, mas na hora de sua morte não pude estar presente, pois fui mais apressado que ele.No dia 02 de agosto a cortina vermelha desceu para o vão que foi a vida de Renato Lágrima, que trazia a tristeza em seu nome. Quando as luzes apagaram a única coisa que se ouviu foi o silêncio dos olhos pasmos. Morreu assim, sem palmas, como se a ribalta não o alcançasse, como se não fizesse parte do espetáculo.
Nº 28
Lembro-me da ultima vez que o vi. Éramos jovens e vivíamos no mesmo quarto de numero 28, no orfanato “Colinho de painho”. Não me lembro com detalhes da nossa conversa, mas, se não me engano, era algo sobre comunicabilidade. E ainda nesta noite, já enrolado no lençol, ouvi ele me balbuciar um “Obrigado Abílio!”.E apesar de não entender muito bem, respondi-lhe, - Por nada Renato!-No outro dia não acordei. E só assim pude entender o seu obrigado, percebi que, além do cigarro, era eu a sua única companhia. Deixei Lágrima no dia 17 de agosto, estávamos com 17 anos.Soube que um ano após a minha morte Renato mudou-se para Rua Santa Cruz, que hoje se chama Rua Doutor Ricardo Borges Pinto, no bairro Caixa D’água.
_
Sonhos
Todo dia, após o almoço, subíamos para o quarto e, antes da sesta, compartilhávamos sonhos. Numa destas prosas contou-me Renato sua mais intima aspiração, que me pareceu simples, mas em se tratando de Lágrima, não é de fácil entendimento, por isso não vou contar-lhe o contado, não é necessário que eu encha a tua cabeça neste momento. Não fique curioso, quem sabe em momento mais oportuno eu revele? O que é preciso que entendas neste momento é que ele me contou uma de suas intimidades e iste era o primeiro sinal de confiança que ele depositou-me, não sem antes fazer-me jurar segredo. Nunca havia dito desejos tão pessoais, pelo menos a mim. Entendes agora o motivo do meu espanto?Descemos juntos, ainda no mesmo dia, para jantar. Renato com sua roupa de sábado, eu com meu traje de sempre. Ah! E eu quase ia me esquecendo, Renato tinha uma perna menor que a outra, a direita, e por isso usava uma bengala de Jacarandá que ganhara de Enéas, no natal passado. “Não é só uma bengala! É uma companheira de grande estilo!”, disse Enéas ao entregar-lhe o presente. Deste dia em diante não largou mais a vareta.Sentamos no mesmo local de sempre, longe dos meninos e longe das meninas, comemos a mesma comida de sempre e voltamos no mesmo horário de sempre. Lembro-me perfeitamente da afobação que eu sentia ao chegar perto dos meninos, não que com as meninas fosse diferente, mas, claramente, não chegava aos pés... Não sabia o motivo, mas também sempre procurava fugir do assunto e falar de política, futebol, religião, enfim, qualquer outra coisa.
Ateus
Relendo o capítulo anterior, lembrei-me de certa ocasião em que Renato falou-me que não confiava nos padres e, muito menos, nos papas. “Não acredito nesses carecas! Só falam, falam e falam, mas sair do canto que é bom, nada!”. Afirmava com tanta veemência que fez-me perceber suas insatisfações religiosas. Não o julgue pelo que lês, acho que, em certos pontos, eu também concordava, mas tinha medo. Hoje, analisando os fatos passados, cheguei a uma conclusão:
Éramos ateus (que coisa sem graça...).
Alcova
Recordo-me das visitas em minha alcova no dia do meu falecimento, não eram muitas, mas eram verdadeiras. Estavam presente Renato, Enéas, Alves, Berenice e mãe Jurema. Ninguém chorava, mas não me incomodei, afinal, eu também não costumava chorar em enterros. Do lado de fora do quarto havia dois ou três meninos espiando pela fechadura. Hoje os agradeço por estarem ali, pois me deram outro capítulo.
Meninos
Dias após a minha morte os meninos inventaram motivos para ela. Alguns dizem que morri sufocado, outros dizem que de pecado, mais o que mais me incomodou, e unanimemente aceito por todos, foi o da moléstia. Da onde contraíra a tal moléstia?!Surgiram várias explicações, alguns diziam que peguei da comida de dona Ziza, a senhora da cantina, tese fundada em minhas freqüentes visitas a Mágno, filho da senhora, que servia-me de Companhia nos sábados em que Renato saía para visitar seu tio Tenório. Dona Ziza não tinha uma das mãos. Outros diziam que peguei a moléstia da perna de Renato, diziam os meninos que a perna dele tinha vida própria e que quando ela quisesse sairia do seu corpo a procurar outra que lhe combinasse o tamanho e juntas sairiam por aí chutando as bundas dos cegos.Eu acreditava em parte, mas não achava que ela procuraria um par e também não acreditava que ela passasse moléstia para outros.É importante ressaltar que este foi um dos motivos que contribuíram para a saída de Renato, após completar a maior idade.
A despedida
Um ano e dois meses após minha morte, Renato foi morar no bairro da Caixa d’água. Sua despedida não foi calorosa nem fria, poucos amigos e pouca comoção.Levara apenas um par de roupas, sua bengala, e o dinheiro que lhe deixei. Seu tio lhe comprara uma casa, não era lá essas coisas, mas dava para sobreviver. Situada ao lado de uma pensão, a casa tinha lá seu charme. Arrumara a casa a seu modo, ainda lhe faltava muita coisa, mas havia de comprar assim que começasse a trabalhar no escritório do tio. Seus novos visinhos doaram-lhe alguns trapos velhos que serviriam para diminuir o oco da casa enquanto não providenciasse móveis novos. Trocaram cumprimentos, boas vindas e nomes, apesar de não lembrar muito bem dos nomes, Renato não se esquecera de Emiliana. Desta, falo outrora, convém apresentar-lhes Tenório.
_
Tenório
Irmão de Eusébia, mãe de Lágrima. Sentia-se na obrigação de dar um futuro para o pobre órfão. Não tirara antes do orfanato por motivos burocráticos, vou-lhes explicar em outra oportunidade. Os seus cinqüenta anos já se afastaram muito e por isso não perderia a oportunidade de arrumar um nome para os seus testamentos. Apesar da aparência não me parecia mal sujeito, chegou até a enviar-me doces. A única coisa que me incomodava era o fato de ele ser solteiro. Como pode um homem de certa idade ser solteiro?
_
Agora sim, Emiliana
Dentre todos vizinhos só enxergara a enteada de dona Lúcia. A dona de olhos pretos. Era uma boa moça, Emiliana. Lavava, passava, cozia e tudo mais. “É uma santa!”. Exclamava Dona Lúcia. E de fato tinha razão.
_
Paixão à segunda vista
De primeira nem tanto, mas de segunda...Apaixonou-se perdidamente por aquela moçoila. A primeira vez é inesquecível. Lembrei-me da minha, apaixonara-se certa vez vês por um moço do quarto 16, apesar de nunca ter dirigido o meu olhar ao seu, sabia que não havia fundamento.O mesmo não aconteceu ao Renato, dizem as más línguas que até beijos foram trocados.
Não acredito muito.
_
O fim
Dois anos mais tarde Emiliana mudou-se para Santa Lucia, deixando meu amigo. Ainda penou durante uns três anos antes que o enfarto o encontrasse.
Introdução
Esta pode parecer uma história feliz, mas não te enganes. Renato foi feliz uma única vez. Na hora da morte. Sua vida não passou de uma mentira e sua morte foi mais uma. Por que Renato não morreu, pra falar a verdade, acho que nem viveu. Sua história se resume a uma única aventura de amor, ou melhor, de mentira.Morreu aos 23 anos, por ele teria sido antes. Morreu em casa, só. Tu deves estar se perguntando como eu sei de tudo isso? Fui o seu único e verdadeiro amigo, mas na hora de sua morte não pude estar presente, pois fui mais apressado que ele.No dia 02 de agosto a cortina vermelha desceu para o vão que foi a vida de Renato Lágrima, que trazia a tristeza em seu nome. Quando as luzes apagaram a única coisa que se ouviu foi o silêncio dos olhos pasmos. Morreu assim, sem palmas, como se a ribalta não o alcançasse, como se não fizesse parte do espetáculo.
Nº 28
Lembro-me da ultima vez que o vi. Éramos jovens e vivíamos no mesmo quarto de numero 28, no orfanato “Colinho de painho”. Não me lembro com detalhes da nossa conversa, mas, se não me engano, era algo sobre comunicabilidade. E ainda nesta noite, já enrolado no lençol, ouvi ele me balbuciar um “Obrigado Abílio!”.E apesar de não entender muito bem, respondi-lhe, - Por nada Renato!-No outro dia não acordei. E só assim pude entender o seu obrigado, percebi que, além do cigarro, era eu a sua única companhia. Deixei Lágrima no dia 17 de agosto, estávamos com 17 anos.Soube que um ano após a minha morte Renato mudou-se para Rua Santa Cruz, que hoje se chama Rua Doutor Ricardo Borges Pinto, no bairro Caixa D’água.
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Sonhos
Todo dia, após o almoço, subíamos para o quarto e, antes da sesta, compartilhávamos sonhos. Numa destas prosas contou-me Renato sua mais intima aspiração, que me pareceu simples, mas em se tratando de Lágrima, não é de fácil entendimento, por isso não vou contar-lhe o contado, não é necessário que eu encha a tua cabeça neste momento. Não fique curioso, quem sabe em momento mais oportuno eu revele? O que é preciso que entendas neste momento é que ele me contou uma de suas intimidades e iste era o primeiro sinal de confiança que ele depositou-me, não sem antes fazer-me jurar segredo. Nunca havia dito desejos tão pessoais, pelo menos a mim. Entendes agora o motivo do meu espanto?Descemos juntos, ainda no mesmo dia, para jantar. Renato com sua roupa de sábado, eu com meu traje de sempre. Ah! E eu quase ia me esquecendo, Renato tinha uma perna menor que a outra, a direita, e por isso usava uma bengala de Jacarandá que ganhara de Enéas, no natal passado. “Não é só uma bengala! É uma companheira de grande estilo!”, disse Enéas ao entregar-lhe o presente. Deste dia em diante não largou mais a vareta.Sentamos no mesmo local de sempre, longe dos meninos e longe das meninas, comemos a mesma comida de sempre e voltamos no mesmo horário de sempre. Lembro-me perfeitamente da afobação que eu sentia ao chegar perto dos meninos, não que com as meninas fosse diferente, mas, claramente, não chegava aos pés... Não sabia o motivo, mas também sempre procurava fugir do assunto e falar de política, futebol, religião, enfim, qualquer outra coisa.
Ateus
Relendo o capítulo anterior, lembrei-me de certa ocasião em que Renato falou-me que não confiava nos padres e, muito menos, nos papas. “Não acredito nesses carecas! Só falam, falam e falam, mas sair do canto que é bom, nada!”. Afirmava com tanta veemência que fez-me perceber suas insatisfações religiosas. Não o julgue pelo que lês, acho que, em certos pontos, eu também concordava, mas tinha medo. Hoje, analisando os fatos passados, cheguei a uma conclusão:
Éramos ateus (que coisa sem graça...).
Alcova
Recordo-me das visitas em minha alcova no dia do meu falecimento, não eram muitas, mas eram verdadeiras. Estavam presente Renato, Enéas, Alves, Berenice e mãe Jurema. Ninguém chorava, mas não me incomodei, afinal, eu também não costumava chorar em enterros. Do lado de fora do quarto havia dois ou três meninos espiando pela fechadura. Hoje os agradeço por estarem ali, pois me deram outro capítulo.
Meninos
Dias após a minha morte os meninos inventaram motivos para ela. Alguns dizem que morri sufocado, outros dizem que de pecado, mais o que mais me incomodou, e unanimemente aceito por todos, foi o da moléstia. Da onde contraíra a tal moléstia?!Surgiram várias explicações, alguns diziam que peguei da comida de dona Ziza, a senhora da cantina, tese fundada em minhas freqüentes visitas a Mágno, filho da senhora, que servia-me de Companhia nos sábados em que Renato saía para visitar seu tio Tenório. Dona Ziza não tinha uma das mãos. Outros diziam que peguei a moléstia da perna de Renato, diziam os meninos que a perna dele tinha vida própria e que quando ela quisesse sairia do seu corpo a procurar outra que lhe combinasse o tamanho e juntas sairiam por aí chutando as bundas dos cegos.Eu acreditava em parte, mas não achava que ela procuraria um par e também não acreditava que ela passasse moléstia para outros.É importante ressaltar que este foi um dos motivos que contribuíram para a saída de Renato, após completar a maior idade.
A despedida
Um ano e dois meses após minha morte, Renato foi morar no bairro da Caixa d’água. Sua despedida não foi calorosa nem fria, poucos amigos e pouca comoção.Levara apenas um par de roupas, sua bengala, e o dinheiro que lhe deixei. Seu tio lhe comprara uma casa, não era lá essas coisas, mas dava para sobreviver. Situada ao lado de uma pensão, a casa tinha lá seu charme. Arrumara a casa a seu modo, ainda lhe faltava muita coisa, mas havia de comprar assim que começasse a trabalhar no escritório do tio. Seus novos visinhos doaram-lhe alguns trapos velhos que serviriam para diminuir o oco da casa enquanto não providenciasse móveis novos. Trocaram cumprimentos, boas vindas e nomes, apesar de não lembrar muito bem dos nomes, Renato não se esquecera de Emiliana. Desta, falo outrora, convém apresentar-lhes Tenório.
_
Tenório
Irmão de Eusébia, mãe de Lágrima. Sentia-se na obrigação de dar um futuro para o pobre órfão. Não tirara antes do orfanato por motivos burocráticos, vou-lhes explicar em outra oportunidade. Os seus cinqüenta anos já se afastaram muito e por isso não perderia a oportunidade de arrumar um nome para os seus testamentos. Apesar da aparência não me parecia mal sujeito, chegou até a enviar-me doces. A única coisa que me incomodava era o fato de ele ser solteiro. Como pode um homem de certa idade ser solteiro?
_
Agora sim, Emiliana
Dentre todos vizinhos só enxergara a enteada de dona Lúcia. A dona de olhos pretos. Era uma boa moça, Emiliana. Lavava, passava, cozia e tudo mais. “É uma santa!”. Exclamava Dona Lúcia. E de fato tinha razão.
_
Paixão à segunda vista
De primeira nem tanto, mas de segunda...Apaixonou-se perdidamente por aquela moçoila. A primeira vez é inesquecível. Lembrei-me da minha, apaixonara-se certa vez vês por um moço do quarto 16, apesar de nunca ter dirigido o meu olhar ao seu, sabia que não havia fundamento.O mesmo não aconteceu ao Renato, dizem as más línguas que até beijos foram trocados.
Não acredito muito.
_
O fim
Dois anos mais tarde Emiliana mudou-se para Santa Lucia, deixando meu amigo. Ainda penou durante uns três anos antes que o enfarto o encontrasse.
J.
domingo, 27 de setembro de 2009
Cambitos
Logo que me vejo andando penso,
Lá vai o balde amargo de sentimentos.
Gosto de andar ao entardecer...
As pessoas dessa hora são poucas, feias e engraçadas
Ao encontrar um sujeito gordo e conhecido,
Logo ouvi gritar, do primeiro capítulo do casamento, uma frase que me apodrece,
- Todo magro é canalha! –
Enraivecido, apanhei o primeiro transporte que me veio à vista e vim parar aqui.
E agora, olhando o espelho e minhas pernas, sinto angustia e raiva do meu pai.
J.
Logo que me vejo andando penso,
Lá vai o balde amargo de sentimentos.
Gosto de andar ao entardecer...
As pessoas dessa hora são poucas, feias e engraçadas
Ao encontrar um sujeito gordo e conhecido,
Logo ouvi gritar, do primeiro capítulo do casamento, uma frase que me apodrece,
- Todo magro é canalha! –
Enraivecido, apanhei o primeiro transporte que me veio à vista e vim parar aqui.
E agora, olhando o espelho e minhas pernas, sinto angustia e raiva do meu pai.
J.
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